José Saramago, o Nobel, neto de Jerónimo e de Josefa

Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha. Assim se chamavam os avós maternos que José Saramago nunca esqueceu. Jerónimo – escreveu um dia – fora o homem mais sábio que conhecera. E conta: “Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava”. Era o tempo da infância e Saramago deixa dito ainda: “até à maioridade, foram muitos, e frequentemente prolongados, os períodos em que vivi na aldeia com os meus avós maternos”. (1)

Este Homem com H grande, como sói dizer-se, nasceu “numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa.” E escutem-se estas duas histórias deliciosas, contadas pelo próprio escritor: “Os pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago… Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço. Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de Novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.” (2)

Depois de abandonar a vida de camponês, o pai de Saramago veio para Lisboa e começou a exercer a profissão de polícia.
Feita a escola primária e concluído um curso de ensino técnico que o habilitou a ser serralheiro mecânico, o futuro escritor começa a trabalhar. Tornara-se já leitor assíduo e voraz, frequentador de bibliotecas, nos tempos livres de que dispunha. Foi empregado administrativo, e viria a ser um excelente editor e tradutor, jornalista também… Casou em 1944, teve uma filha, e no ano do seu nascimento, 1947, publicou o seu primeiro romance: Terra do Pecado. Separa-se entretanto, encetando uma relação com a escritora Isabel da Nóbrega; e, em 1988, casa segunda vez com a jornalista e tradutora espanhola Pilar del Río.

Com uma vida literária consagrada por numerosos galardões e homenagens, Saramago viu ser-lhe atribuído em 1995 o Prémio Camões, e, em 1998, o Prémio Nobel de Literatura. A distinção encheu Portugal de orgulho e, na altura, foi uma festa, inclusive nas ruas, como tive ocasião de testemunhar.

Além de escritor multifacetado (romances, contos, livros de poemas, peças de teatro, crónicas, um livro de memórias, diários, um livro de viagem, textos de intervenção, uma obra para a infância…), Saramago – que falece em Lanzarote, Canárias, a 18 de junho de 2010 – foi um cidadão progressista e interventivo, no plano cívico, político e cultural, tanto em Portugal como no estrangeiro, antifascista, democrata e comunista desde muito antes de Abril de 1974, sempre guiado pela defesa da paz e da justiça social, de quem vive do seu trabalho e, invariavelmente, ao lado dos mais desfavorecidos da sociedade, que não raro retratou na sua ficção.

Em 2007, foi criada em Lisboa uma Fundação com o nome do escritor, a qual assume, entre os seus principais propósitos,
a defesa e divulgação da literatura contemporânea, a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos e as preocupações ambientais.

Traduzido para inúmeros idiomas, Saramago teceu ficções a partir de momentos marcantes da História de Portugal (Levantado do Chão, 1980, Memorial do Convento, 1982, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984, A Viagem do Elefante, 2008...); construiu alegorias que desafiam a pensar a História e o nosso tempo (A Jangada de Pedra, 1986, A Caverna, 2000...); abordou nos seus romances de vocação universalista, entre outros temas, a relação homem/mulher (História do Cerco de Lisboa, 1989…), a relação com a divindade e as questões da religião, do conflito de classes, da escrita da História e da criação literária. Nas poderosas e surpreendentes narrativas de Saramago, capazes de impulsionar a reflexão crítica do leitor, a Língua Portuguesa ganhou novos matizes e formas de exprimir. Revelou-se um prosador e estilista bem original, dos melhores do nosso tempo, que fez da oralidade o nervo da sua escrita, e cuja obra e marcante personalidade ocupam lugar cimeiro na História da nossa cultura e da nossa literatura, honrando o país. Por isso é hoje, e certamente continuará a ser um dos escritores de Língua Portuguesa mais admirados e mais lidos.

José António Gomes

 

Notas
(1) José Saramago, “Discursos de Estocolmo”, disponível em: Porto Editora, 2018, consultado em 9-9-2022.
(2) José Saramago, “Autobiografia”, Fundação José Saramago, consultado em 8-9-2022.